Audrey Hepburn, uma Estrela de Cinema, Givenchy e um Café da Manhã em Tiffany’s

Audrey Hepburn, uma Estrela de Cinema, Givenchy e um Café da Manhã em Tiffany’s

Como uma adolescente magricela, da nobreza empobrecida, mudou Hollywood, o Mundo Fashion e conseguiu agradar Truman Capote e o resto do mundo?

Era mais ou menos inevitável. Talvez fosse melhor empregar a palavra “inelutável”, impossível de não fazer pelo menos uma breve menção. O que seria tremendamente injusto com a Estrela em questão, a moda, o cinema e até a música.

A Estrela usava o nome de Audrey Hepburn, além de lindíssimas coleções exclusivas de Givenchy. Aliás, ela “descobriu” o até então obscuro estilista Hubert de Givenchy, cuja maison, naqueles tempos, não era tão frequentada quanto Dior, Chanel, Yves Saint-Laurent, e o tornou, por longos anos, o seu figurinista exclusivo.

Reza a lenda que um dos “caça-talentos” dos grandes estúdios de Hollywood, no finalzinho dos anos vinte ou começo dos anos trinta, escreveu sobre Fred Astaire: “Baixinho. Careca. Não sabe cantar. Dança um pouquinho.” Não sei o que se fez desse “caça-talentos”, espero que não tenha sido sumariamente demitido depois de tão “fiel” descrição do entrevistado. Mas todos conhecemos os fatos: a imbatível dupla “Fred and Ginger”, os recordes de audiência dos musicais de ambos, as coreografias perfeitas, o “tap dance” ou sapateado, as canções dos grandes compositores americanos que ele gravou em primeira mão e que se tornaram imediatamente “top hits”, os inesquecíveis filmes com Rita Hayworth (a sua “partner” favorita, segundo se comenta nos bastidores…)

Foto de Richard Avedon para o filme “Cinderela em Paris” - “Funny Face”, dirigido por Stanley Donen.

Foto de Richard Avedon para o filme “Cinderela em Paris” – “Funny Face”, dirigido por Stanley Donen.

Voltando a Audrey Hepburn, também era improvável que aquela eterna adolescente (nunca engordou, queridas e queridos, mas foi por doença proveniente de privações da Segunda Guerra; posso deduzir que, como Audrey tinha um bom gosto inato, não desprezava saborear bons pratos. Mas não conseguia comer muito. Ao que saiba, jamais preconizou a bulimia ou a anorexia; pelo contrário: nos seus últimos anos de vida – só 63, que pena – foi Embaixadora do UNICEF, e visitava mesmo as comunidades mais pobres da África, usando o seu prestígio para obter algum alívio para a fome que, infelizmente, ainda maltrata e dizima milhões de pessoas no nosso Continente-Mãe).

Voltando, era improvável que Audrey Hepburn-Ruston (não, Ella van Heemstra era sua mãe, descendente de reis ingleses e franceses e que casou com um banqueiro inglês) acabasse se tornando um ícone do cinema, da moda e de um estilo de vida: chic e básico.

Muito alta. Muito magra. Sem o farto busto de Marylin ou Jayne Mansfield. Dérrière inexistente. Morena, não loira platinada. Sobrancelhas bastas. Orelhas quase de abano. Olhos enormes. Maxilares proeminentes. Lábios finos, não carnudos. Nariz… Bem, tudo era desproporcional, ali não havia a tal beleza olímpica.

Mas qualquer um podia perceber o je ne sais quoi de encanto, quando os olhos de gazela cruzavam os seus, ou quando aqueles lábios se abriam em um sorriso absolutamente desarmante, capaz de derreter a ferocidade de um… nazista, talvez? Ou quando daqueles mesmos lábios brotavam palavras que mais pareciam uma carícia.

Em seu primeiro filme, “A Princesa e o Plebeu”, o galã foi Gregory Peck. Se você tiver a sorte de possuir o DVD que tem cenas do teste que ela fez para conquistar o papel, poderá ver que, sem saber que as câmeras continuavam gravando, o diretor do teste perguntou-lhe o que ela fazia, durante a Segunda Guerra: ela responde – dançávamos para entreter os soldados aliados; o diretor – e os nazistas, o que eles achavam disso? Ela, à época estudante de ballet clássico, tímida e candidamente respondeu: “Acho que os nazistas não sabiam”.

Esse papel rendeu-lhe o primeiro Oscar. Muitos outros prêmios vieram, pelo mesmo e por outros filmes, músicas, peças de teatro. Foi a terceira atriz a arrebatar, no mesmo ano, o EGOT (acrônimo para Emmy, Grammy, Oscar e Tony). É considerada pelo American Film Institute a terceira maior lenda feminina do cinema, atrás apenas de Katharine Hepburn (sem parentesco algum) e Bette Davis.

Nos anos em que atuou, principalmente no cinema, enfrentou uma séria dificuldade: a raridade de galãs de idade aproximada e que tivessem o mesmo Star Quality. Gregory Peck talvez fosse uma exceção e William Holden também. Mas nos seus grandes filmes, contracenou com os “monstros sagrados” Fred Astaire (“Cinderela em Paris”), Gary Cooper (“Amor na Tarde”, ou “Love in the Afternoon”), Humphrey Bogart (“Sabrina”). Ao saber quem seria sua co-estrela, Bogie teria dito que se recusava a atuar com uma “menina com idade para ser sua neta!”. Cary Grant (“Charada”) foi outro que teve de ser docemente convencido. Aliás, nesse filme há uma das tiradas mais famosas do cinema: uma Audrey embriagada e embevecida, sentada no colo de Grant (sortuda!), perguntou-lhe: “Sabe o que há de errado com você? Nada”.

Audrey Hepburn como Eliza Doolittle no filme “My Fair Lady”.

Audrey Hepburn como Eliza Doolittle no filme “My Fair Lady”.

Em “My Fair Lady”, luxuosíssima versão do musical para o cinema, contracenou com Rex Harrison. Todos esperavam que Julie Andrews, que interpretou o papel de Eliza Doolittle nos palcos, seria escolhida para o filme; os produtores, investidores, diretores, etc. (sim, o cinema é uma empresa, uma indústria; ninguém queria arriscar que o principal papel fosse para uma atriz, bailarina e cantora de enorme talento, mas que era virtualmente desconhecida do grande público. A escolha óbvia havia de ser Audrey Hepburn, então no auge do estrelato. Julie ganhou dois “prêmios” de consolação: o Oscar daquele ano, por “Mary Poppins”, e no ano seguinte estrelou “A Noviça Rebelde”. O resto é História).

Digno de nota é um filme menos conhecido, mas de qualidade (Audrey novamente dirigida por William Wyler, que a dirigiu em “A Princesa e o Plebeu”). O galã, finalmente com uma idade aproximada, foi Peter O’Toole, o charmoso ator inglês que manteve a “fina estampa” até o fim.

E onde é que Truman Capote entra nessa história? Bem, ele escreveu um livro chamado “Breakfast at Tiffany’s”. Blake Edwards, cineasta, resolveu adaptá-lo para o cinema. Muitas cenas foram filmadas em locação. A primeira, a que abre o filme, é até hoje considerada uma das mais belas do cinema: o sol estava nascendo quando Audrey, de óculos escuros, coque de bailarina, vestido longo, preto, de festa, desce de um táxi, com um cigarro em longa piteira, um copo descartável de café e um saquinho com bagels; equilibrando tudo isso, toma o seu breakfast “paquerando” uma das vitrines da famosa e exclusiva joalheria.

Dizem que essa cena teve de ser refeita inúmeras vezes, porque Audrey, a grande Estrela do Cinema, estava tremendo de nervosismo porque Capote fez questão de acompanhar as filmagens. Ele não a queria para o papel, achava que era “doce” demais para um papel “pesado” como Holly Golightly, na verdade uma “prostituta de luxo”. Capote queria Marylin Monroe para o papel. Mas, impressionado com a coragem da atriz de interpretar um personagem que nada tinha a ver com a persona que habitualmente projetava, rendeu-se aos seus encantos.

“How do I look?”, ela pergunta para um fascinado George Peppard. Ela estava linda.

Moon River”, a música tema do filme que até foi interpretada por Audrey em uma das cenas, cantando e tocando ela mesma um violão, é uma canção clássica que, se não é conhecida pelo nome ou por seu compositor (Henry Mancini) é imediatamente reconhecida pelos ouvintes do mundo inteiro, logo nos primeiros acordes.

E a foto a seguir é reconhecida imediatamente por quase todos os habitantes do Planeta:

Em “Breakfast at Tiffany’s”, Audrey Hepburn fez o papel de uma "prostituta de luxo".

Em “Breakfast at Tiffany’s”, Audrey Hepburn fez o papel de uma “prostituta de luxo”.

De acordo com Irving Penn, que fotografou quase todas as estrelas de cinema e morreu com mais de cem anos, “Audrey Hepburn foi uma espécie de milagre, de fascínio. Hollywood, naqueles tempos, tinha realmente necessidade de alguém como ela”.

E eu diria que ela era uma daquelas raras pessoas que, como Fred Astaire e Cary Grant, já faziam bem só de olhar para eles. Eles, pelo talento, pela graça, pela doçura, pelo wit, tinham o dom de nos fazer acreditar, ainda que por um breve momento, que o mundo pode ser melhor. Mais agradável. Mais inteligente. Mais bonito. Mais… fashionable.

Por: Lucila Moreira Silveira, servidora pública e curiosa. Muito curiosa.

 

(Fotos: Reprodução)