Desconfiança: o maior sabotador das relações

Desconfiança: o maior sabotador das relações

Hoje vamos conversar um pouco sobre um tema que está presente em quase todos os rompimentos/discórdias das relações (sejam elas; amorosa, familiares, profissionais, de amizade): a desconfiança.

A desconfiança é uma estratégia cerebral (cognitiva) que todos nós temos e que tem como principal objetivo nos proteger de frustrações futuras. A pegadinha cerebral disso é que acabamos vivendo essa frustração em nossos pensamentos e sentindo todas as dores emocionais como se o pior já estivesse ocorrido (ou ocorrendo).

O que muitos não sabem é que também existe a desconfiança positiva. É aquela que nos move a detectar falhas e nos aprimorar. Evoluir. A própria ciência, como estudamos hoje, é resultado de anos e anos de desconfianças. Devemos isso, principalmente, a René Descartes, um dos mais importantes filósofos do mundo, que ajudou a ciência a dar um salto enorme com seu método: a dúvida, que é a busca incansável pela verdade das coisas que nos são apresentadas (não aceitar dogmas).

A desconfiança positiva ajudou o homem a descobrir que a terra é redonda e que gira em torno do sol, e não ao contrário. Nos permite reler um relatório antes de entregar para o chefe, nos faz solicitar uma nova correção quando desconfiamos que o professor corrigiu errado.

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O problema é o excesso de desconfiança. Quando você desconfia de seu namorado, no fundo, quer evitar sofrer futuramente. Quer evitar perdê-lo. Portanto, usa como estratégia ficar cercando o par de todas as formas. Saber por onde anda, o que está fazendo, quem são seus amigos… E pior: para quem desconfia, tudo é um indício de que o outro realmente pode quebrar (ou já quebrou) sua confiança, pois temos uma grande tendência a selecionar fatos que confirmam nossas teorias e eliminar as que não confirmam.

Por excesso de medo de perder, portanto, acabamos perdendo. Afinal, do outro lado dessa relação existe alguém que sente-se constantemente vigiado, em sinal de alerta máximo, pisando em ovos, em tensão máxima. E sabe o que mais pode acontecer? A vítima da sua desconfiança pode começar a achar que você desconfia porque faz coisa pior. Aí começa um relacionamento instável.

Questionar várias vezes sobre um determinado assunto que envolva o tema desconfiança, faz com que o outro se sinta em um tribunal, à espera de algum erro em sua versão dos fatos. O que precisamos saber é que nossa memória (uma das funções principais do hipocampo) é altamente flexível e a toda hora pode adicionar ou omitir algum fato que ocorreu (e às vezes até criar, sem intenção alguma de enganar. Vide teoria da sedução de Freud que fala das falsas memórias). Portanto, esses lapsos de memória são naturais, mas para quem desconfia isso é a prova cabal de uma traição. Ou seja, quando o outro, ao relatar o fato por várias vezes e cair no erro (comum) de acrescentar ou retirar algum relato, isso poderá ser entendido como uma mentira e quebrar a confiança do desconfiado.

Quando a desconfiança não destrói uma relação, acaba transformando um relacionamento em uma ilha deserta. Aqueles casos em que o casal se afasta de tudo e todos, que é uma estratégia para manter a salvo o relacionamento. A má noticia é que relacionamentos “ilha deserta” não costumam durar muito. Isso porque, geneticamente, fomos programados para viver em sociedade e, ao mesmo tempo, ter nossa individualidade (que é afirmar nossa própria essência a essa sociedade). Fugir disso é colocar nossa própria saúde mental em risco.

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Uma das histórias de traição mais famosa é do século I A.C., fala do Imperador Romano Júlio César, o qual foi vítima de uma conspiração de senadores para tirá-lo do cargo. Entre eles estava o seu filho adotivo Marcus Brutus. O complô resultou no assassinato do imperador a punhaladas pelo grupo de senadores. Na hora da morte, Júlio César reconheceu o filho entre os seus algozes e proferiu a famosa frase. “Até tu, Brutus, filho meu?”.

Essa história nos ensina uma coisa, um tanto quanto cruel, mas verdadeira: quem quer trair, trai. Não adianta tentar cercar o outro, ele vai dar o seu jeito (se ele quiser trair). Portanto, perceba que desconfiar é uma estratégia que não garante nenhuma segurança. Pelo contrário, se o seu parceiro estiver realmente te traindo e souber de seu excesso de desconfiança, ele vai se armar de estratégias fantásticas para acobertar a traição.

O contrário também é verdade: quanto menos eu desconfio, mais eu deixo o parceiro relapso em disfarçar o “rastro do crime” e, portanto, mais fácil será pegá-lo no erro.

Quando eu sofro por desconfiança eu acabo vivendo essa traição (mesmo que não seja real) todos os dias em minha cabeça. É torturante. Além do mais, eu acabo despertando no outro, como falei anteriormente, uma desconfiança da minha desconfiança. Existem casos, e não são poucos, de pessoas que cometem algo errado pelo simples fato de sentirem “incriminados” por algo que não cometeram. “Já que me acusa de ter feito algo errado, vou fazer!”.

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Nas relações de amizade, a desconfiança age da mesma maneira. Desgasta o relacionamento. Transforma o carinho em algo aversivo. Principalmente quando isso é reincidente. A pessoa que desconfia de todos e tudo, acaba, infelizmente, tornando-se uma pessoa solitária no mundo.

Existe, ainda, a desconfiança de si mesmo, que nos causa sofrimento e insegurança quanto a nossa capacidade de enfrentar problemas, alcançar objetivos, melhorar relacionamentos.

A desconfiança é fruto de um severo medo de rejeição, medo de abandono, medo de ser feito de otário.

A desconfiança tem cura? Claro que tem! Mas é um processo complicado que requer terapia, comprometimento e aceitar mudanças. Minha dica para iniciar essa mudança: procure um psicólogo.

 

André Barbosa
(85) 98813-9593
@opsicologo