Dorothy Parker, A Curiosidade, Paris, Kate Spade e minha viagem a trabalho

Dorothy Parker, A Curiosidade, Paris, Kate Spade e minha viagem a trabalho

Viajei a trabalho alguns anos atrás, a fim de atualizar-me ouvindo algumas palestras. Comparecendo ao que mais interessava ao meu trabalho, resolvi dar uma “escapadela” e fui visitar um Shopping nas proximidades (a “praia” dos paulistanos, como dizem alguns malvados).

Bongando (o verbo existe mesmo, releiam os primeiros parágrafos de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, nunca faz mal revisitar os clássicos; além disso, tenho aqui do meu lado um volume do Dicionário Houaiss). Como sempre divago e como sempre, volto a bongar nos corredores do Shopping (não perguntem o nome…).

Passeando sem a menor intenção de adquirir alguma coisa (pois sim!), passei por uma vitrine enfeitada por uma bolsa simples e absolutamente linda.

A bolsa Kate Spade.

A bolsa Kate Spade. (Foto: Lucila Moreira)

Onde estava a beleza? Na combinação das cores e, para mim, na frase que ela estampava: “The Cure for Boredom is Curiosity. There is No Cure for Curiosity” (que significa: “A Cura para o Tédio é a Curiosidade. Não há Cura para a Curiosidade”), de Dorothy Parker.

Pois é. Simples e direto, como se deve escrever. Bem ao contrário de uma certa “soi-disante” escritora.

Aí, fez sua entrada triunfal no meu espírito a velha batalha entre o cérebro, o coração, o bolso e a fatura do cartão de crédito. “Essa bolsa não é pra mim, deve custar uns mil e quinhentos reais”. E não sou muito fã dos famosos doze vezes sem juros…

Subindo e descendo escadas, tomando um cafezinho, comendo um sanduíche, andando pelos corredores, eis que sempre dava um jeito de voltar à vitrine. Olhei para o nome da loja: “Kate Spade”.

“Você só pode é estar louca, mesmo. Essa bolsa, com certeza, só pode custar uns quatro mil reais”. Entro, não entro. Pergunto, não pergunto. Entrei. Perguntei. Trezentos e cinquenta reais. Comprei.

Dorothy Parker. (Foto: Reprodução)

Dorothy Parker. (Foto: Reprodução)

Dorothy pode não ter sido a maior escritora americana de todos os tempos. Mas tinha uma qualidade imbatível: o “wit”.

Além disso, era dona absoluta de coluna em uma das mais prestigiosas revistas americanas, cuja qualidade é tão indisputável, que nem a WEB foi capaz de ameaçar: a “New Yorker”.

Não sem antes pertencer ao “staff” da Vogue e ser comentarista de teatro da “Vanity Fair”. Desta última, foi convidada a sair, em razão de suas críticas acerbas. Sobre Katharine Hepburn, por exemplo, ela dizia que “É uma atriz capaz de percorrer toda a gama de emoções que vão de A a B”. Quando o presidente americano Calvin Coolidge faleceu, ela perguntou: “E como é que eles sabem?”. Ao que parece, Coolidge era tão, digamos, taciturno, que devia ser difícil saber a diferença…

E, não sendo escritora fabulosa e monumental, nos “roaring twenties”, tinha lugar reservado na mesa “literária” mais famosa de Nova York: a que ficava no Algonquin.

Os outros frequentadores da mesa eram outros “wits”, como Robert Benchley, Robert E. Sherwood, e James Thurber.

Porém, a visão daquela bolsa não apenas me lembrou do wit de Dorothy Parker, nem apenas da New Yorker ou da Mesa do Algonquin (quem for à Nova York, ainda pode ver a mesa, cercada de fotos e autógrafos, e podem até reservá-la para um jantar, se não se importarem com os flashes dos turistas).

O famoso “fluxo de memória” aflorou quando assisti, nas madrugadas insones, ao filme “Genius”, com Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman e Laura Linney.

Filme “Genius”, com Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman e Laura Linney. (Foto: Reprodução)

Filme “Genius”, com Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman e Laura Linney. (Foto: Reprodução)

Dificilmente vou ao cinema, acreditem, Shopping Centers não são a minha “praia”, prefiro a praia de verdade. Mas o “Gênio” de que cuida o filme é imerecidamente pouco conhecido no Brasil: o escritor norte-americano Thomas Wolfe. Um de seus livros mais conhecidos é “The Lost Boy”, e uma frase que nunca me saiu da cabeça: “Você nunca volta para casa”.

E muitos dos gênios que influenciaram a prosa, a poesia, o teatro e até a música que ouvimos hoje (tudo é interligado, e as interinfluências são cada vez mais inevitáveis): F. Scott Fitzgerald, Hemingway.

E a bela relação de Pai e Filho que se desenvolveu entre o Editor (Colin Firth, interpretando personagem real, o editor Max Perkins, de Scribner’s & Sons), e o Escritor Genial Thomas Wolfe (interpretado por Jude Law).

Bem, mesmo que você não goste tanto assim de literatura, vale procurar o filme no seu programa de streaming favorito ou na sua TV por assinatura.

E, por fim, despeço-me por enquanto com Dorothy Parker: “Homens raramente ‘cantam’ garotas que usam óculos”. Mas isso foi nos anos 20. Do Século 20.