Eu não sou obrigada.

Eu não sou obrigada.

“Que tipo de mulher é você?” Já perdi as contas de quantas vezes ouvi essa frase na vida. A arrogância do questionamento era sempre em decorrência de uma peça de roupa mais curta ou de estar correndo atrás de uma cara que não me queria, por exemplo. Diante do julgamento eu me sentia mal e ficava tentando achar uma justificativa por meio da qual eu tivesse me permitido chegar ao ponto de ser uma mulher tão vulgar. E me sentia a pior das criaturas, afinal, que tipo de mulher era eu?

 

Vocês não têm noção da barra que é ser mulher.

Não podemos sair de casa com a cara lavada, com o cabelo desarrumado, com a unha por fazer. É desleixo. E desde quando homem gosta de mulher desleixada? Não importa se você teve de madrugar para preparar comida e deixar a casa arrumada antes de sair para o trabalho, não interessa se você passou a noite acordada com seu filho pequeno que estava com uma febre daquelas (ou mesmo esperando o filho adulto chegar da casa da namorada). Não interessa, você tem de estar impecável, porque mulher desarrumada é feia, é deselegante, é broxante.

E por falar em filho, imagina o sufoco que é engravidar na adolescência. Agora imagina essa gravidez (des)acompanhada de um pai que simplesmente some e não cumpre com as suas responsabilidades. Pois bem, coloque tudo isso diante de uma sociedade machista, que culpa a mulher por ter sido boba de se entregar ao primeiro que apareceu ou pior, bobinha, engravidou pensando que filho prende homem. E as pessoas vão achando que têm poder de influência sobre nós e que somos obrigadas a engolir todas as regras que nos foram impostas injusta e indevidamente.

“Você tá muito gorda, tem que emagrecer”.

“Nossa, já tá ficando magra demais, homem gosta é que tenha uma carninha pra pegar”.

“As novinhas é que são boas, coroa não presta pra nada não”.

“Passou dos 30 já tá velha”.

“Xiii, tá solteira há tanto tempo, deve ter algo de errado com ela”.

E assim a gente vai tendo que aprender a conviver com esses dilemas que acabam mexendo tanto com nosso emocional, com a nossa autoestima, que muitas de nós não aguentam e caem em depressão. É muita cobrança, muita expectativa, muito receio. E quando achamos que estamos ganhando um pouco mais de empoderamento, eles vêm nos empurrar na marra as regras cruéis do mundo machista – somos estupradas por um, por 30, por uma sociedade inteira.

Eu não sou obrigada a seguir padrões. Não exija de mim o que para você é o sinônimo de mulher ideal. Aliás, ideal é algo que eu nunca quis (e nem tive talento) para ser. Já nasci meio fora da caixinha. As meninas queriam bonecas, eu queria carrinhos de controle remoto. A maioria das crianças mantinha os pés no chão, eu acreditava que um dia conseguiria voar. E consegui. Voei de dentro de mim mesma. Saí do terreno da limitação para me descobrir uma mulher livre. Porém, vez ou outra acabo prendendo uma asa em um comentário machista, em um olhar desrespeitoso, em um ambiente preconceituoso. Mas isso jamais impedirá meu voo. Enquanto eu existir, serei dona de mim. Nem que para isso eu tenha que brigar com o mundo inteiro, até o fim.

Foto: Elbis Terdany