A praça já não é nossa…

A praça já não é nossa…

Quando eu era criança minha mãe nos levava para a praça. Aquele ritual se repetia todos os dias: nos dar banho, arrumar, dar o lanche e nos levar pela mão até o outro lado da rua, onde finalmente podíamos correr, andar de bicicleta, cair, ralar o joelho e… fazer amigos. A parte mais legal era fazer amigos, claro. E não precisava muito, bastava perguntar o nome do novo colega e em seguida dizer um sonoro “vamos brincar?”.

Quase todo dia conhecíamos uma criança diferente e consequentemente fazíamos um novo amiguinho. Vez ou outra havia uma briga, geralmente porque alguém não aceitava ser “café com leite” ou não queria ser o “pegador” da vez, mas no fim das contas tudo terminava bem e nós voltávamos para casa felizes, sabendo que no dia seguinte haveria mais diversão por ali.

Quando me tornei adolescente reformaram a praça. Aumentaram, fizeram campo de areia, quadra poliesportiva, playground e um espaço para exercícios, além de aumentarem o número de bancos. A praça ganhou mais frequentadores, gente da redondeza e também vinda de outros bairros, principalmente aos sábados, quando havia ali uma feirinha. No geral, todos os dias a praça tava sempre cheia de gente jogando bola, se exercitando, conversando, namorando e… fazendo amigos. E foi ali que conheci alguns dos meus melhores.

A impressão que se tinha é que a vida das pessoas girava em torno daquela praça. Se ela não existisse, provavelmente muita gente não teria se conhecido, nem casado, nem tido filhos. Ela era parte da nossa vida. Era praticamente da família. Sabia de muitos dos nossos segredos, como namoricos de adolescência, primeira paixão, intrigas, traições, mas também conhecia nosso melhor – a felicidade. Ela era a nossa praça.

Depois de alguns anos tive que me mudar. Deixei o lugar e vim para outra cidade. Passei muitos anos até ser encorajada a voltar. E me partiu o coração perceber que a praça, a minha praça, também havia partido. No lugar, apenas um espaço vazio, apenas o concreto, a madeira, o ferro e mais ninguém. Foi então que me dei conta de que não foi só eu que mudei. Fomos nós. Perdemos o hábito de sentar no banco ao ar livre para apreciar o fim da tarde, de conversar com o desconhecido ao nosso lado e deixar fluir o que poderia ser uma das melhores conversas da vida. Perdemos a oportunidade de conhecer alguém que talvez viesse a ser um de nossos melhores

amigos.

As crianças que deveriam estar correndo por ali estão agora na frente da TV, segurando seus tablets ou passeando num espaço limitado em um condomínio fechado. Os casais não costumam mais ficar horas nos bancos mais escuros trocando juras de amor. Fazer isso se tornou perigoso demais, quem seria louco de se arriscar assim? Não há mais feirinha porque os pubs se tornaram mais interessantes. A juventude trocou a diversão mais simples por algo pré-fabricado, pronto, que vem com lista de preferência e entrada  promocional até às 23h. Namorar na praça daria mais trabalho e demoraria muito até que se conseguisse uma certa intimidade para ir à casa do outro. Na boate tudo é mais fácil, a meia luz, a bebida, a música. Tudo flui. Porém, tudo é também descartável.

Mas, e quanto aos amigos? Onde fazemos amigos agora? E se voltarmos amanhã, eles ainda estarão lá? E o “crush”, não terá me trocado pela moça que conheceu no aplicativo? O fato é que hoje se vai a qualquer lugar, mas não há vínculo nenhum. Nem com os lugares, nem com as pessoas. Ao invés de frequentar a pracinha, estamos nos tornando assíduos frequentadores da solidão. Perdemos o hábito de ir à praça. Perdemos o hábito de criar laços. E meu medo é que daqui a um tempo percamos também o hábito de fazer amigos.

Foto: Hugo Digenário