Relacionamento: traição e segunda chance

Relacionamento: traição e segunda chance

Essa semana recebi uma pergunta de uma seguidora no meu Instagram que tem se repetido bastante entre outros seguidores. Vamos chamar a seguidora em questão de Jéssica.

Pergunta: Após 3 anos de namoro descobri que meu namorado estava me traindo. Peguei uma troca de mensagem dele com a outra (clonei o whatsapp dele), logo ele não teve como desmentir como das outras vezes. Isso me abalou demais. Até porque ele sempre me chamava de louca por desconfiar dele. Acabamos e depois de muito sofrimento e choro derramado (de minha parte), quando já estou me recuperando, ele veio atrás de mim se dizendo arrependido, pedindo uma nova chance, pediu desculpa a minha família, dizendo que me ama e que aprendeu a lição. Infelizmente ainda gosto muito dele e, apesar de todas as promessas e desculpas que ele fez/deu, ainda estou receosa. Devo dar uma nova chance? Quem trai uma vez pode mudar? Tornar-se uma pessoa fiel?

Jéssica, a primeira coisa que vou falar, antes de mais nada, é que acredito sim na mudança das pessoas, caso contrário não seria psicólogo. Somos sujeitos em eterna construção e nossos erros (e dores) são excelentes professores e impulsionadores de transformações comportamentais. Mudar fazer parte de nosso amadurecimento.

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Mas, infelizmente, não posso te garantir aqui que seu namorado aprendeu com o erro (ou seja, que está disposto a mudar, caso você queira dar uma nova chance) e que se tornará um homem fiel nessa relação. Para te responder isso, teríamos que fazer uma profunda análise do caso em questão.

Agora, para te ajudar, quero te fazer algumas perguntas para que você reflita:

– Você está disposta a superar esse fato? Não falo esquecer, pois, caso você não sofra de Alzheimer, nunca irá esquecer esse fato. Isso é normal. O que pergunto é: você conseguirá seguir em frente nessa relação e não fazer dessa lembrança (da traição) um fato presente no dia-a-dia de vocês? Ou seja, ficar retornando ao passado e trazendo esse sofrimento para o presente em qualquer discussão?

Pergunto isso porque conheço algumas pessoas que foram traídas, deram uma nova chance e viveram um inferno, pois tudo fazia elas pensarem que o outro estaria traindo novamente. Começaram a entrar em uma paranoia, aumentando a insegurança, afetando autoestima, afetando a qualidade de vida e, até mesmo, o desempenho profissional. Obviamente esses relacionamentos acabaram. Em alguns casos, o motivo foi novamente traição.

Também conheço alguns relacionamentos em que houve traição, mas que hoje são felizes e, até onde sei, fiéis um ao outro.

Nesse segundo caso, se você perguntar se a pessoa traída ainda se lembra do dia em que foi traída, ela irá dizer que lembra. Claro. Mas também dirá que, ao escolher dar uma nova chance para o outro, não se permitiu fazer disso um martírio diário. Não ficou transformando o passado em presente, se machucando diariamente com pensamentos do tipo “fui trocada”, “estou com uma pessoa que escolheu ficar outra”, “todo dia é uma nova chance para ele me trair novamente”…

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Acompanhei uma paciente que chegou com o relato de que foi traída e, ao final da terapia, digo pra você que houveram duas mudanças de comportamentos: a dele e principalmente dela.

No inicio da terapia, fazia apenas dois meses que a paciente havia descoberto a traição, estava muitíssimo abalada, insegura, desconfiada (mas falou que sempre se sentiu assim na relação), aumentou muito o ciúme que a fez querer controlar todos os passos do namorado, afetando seus estudos, trabalho e autoestima.

Ao final da terapia, a paciente era uma nova mulher. Confiante, feliz, segura, autoestima forte e estabilizada. Essa mudança impactou o namorado, o que já era esperado. O discurso dela, ao final, era :”Se ele pisar na bola novamente, quem perderá será ele. Ficarei triste, mas não deixarei isso influenciar minha autoimagem e meu autovalor. Pois quem dita isso sou eu, não ele”.

Não foi uma mudança fácil (nenhuma mudança é), mas funcionou. Hoje quem vive atrás dela é ele. Liga para ela várias vezes por dia, pediu ela em casamento. Anteriormente, de acordo com relato da paciente, ele era separatista e hoje faz questão que ela participe de toda a vida dele.

O ciúmes é natural. Todos temos ciúmes. Agora ele só vira patológico quando você se pega ansiosa querendo saber por qual motivo ele não atendeu sua ligação, ou o que esta fazendo on-line no whatsapp a tal hora da madrugada… Entende?

Agora deixa eu te falar outra coisa: quem quer trair, vai trair. Não adianta você querer controlar a vida do outro 24horas. Quanto maior o controle que você exerce sobre o outro, mais ele se armará de técnicas e esquemas para te trair (se ele quiser te trair) sem deixar rastros, dificultando você tomar conhecimento. O contrário também é real: quanto menos controle você tem sobre a vida do outro, mais fácil você saber de algo.

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Não existe uma fórmula de bolo para um relacionamento feliz e blindado de traições. Cada caso é um caso. Mas posso te assegurar que a liberdade é cativante e apaixonante. Se você exerce influência de controle do outro, você passa uma mensagem terrível para seu inconsciente, que fortalece crenças de baixa autoestima: “ele só está comigo, sendo fiel, porque eu colo no pé dele”, por exemplo.

Além disso, quanto mais você controla o outro, mais você sufoca e desgasta a relação e pode abrir margem para que outro fuja para uma relação extraconjugal.

Pelo que vi, você sempre foi desconfiada, controladora e esse excesso de controle, geralmente, revela baixa autoestima, insegurança… E reverter isso não depende do outro, mas de nós mesmos. Independente da sua opção a ser tomada, eu recomendo que entre faça terapia.

André Barbosa
Psicólogo Clínico
Terapeuta Cognitivo-Comportamental
85 996513394

 

(Fotos: Reprodução / Internet)