A verdade tem dono?

A verdade tem dono?

A verdade tem dono?

Começo a pensar que sim. Ao menos vejo muita gente tomando posse dela. Tomam para si como se a tivessem criado, alimentado, como se de alguma maneira se sentissem responsáveis. Mas talvez seja isso mesmo. Ao que me parece, somos nós quem construímos as nossas verdades. O problema é o que tomamos como base. Julgamos tudo a partir do nosso ponto de vista, de acordo com as nossas opiniões, com nossa formação, com o que vemos, ouvimos e aprendemos ao longo do tempo. E levando em consideração o quanto somos diferentes (basta observar os irmãos criados na mesma família, educados pelos mesmos pais), dá para imaginar a diversidade de verdades que existe mundo afora.

Agora imaginem isso em um mundo globalizado e interligado pelas redes sociais. Você consegue pensar em harmonia? Eu posso ver o caos. Ele chega até nós todos os dias por meio dos celulares, tablets, notebooks e tudo o mais. Outro dia uma amiga postou uma notícia, concordei com ela e fiz um comentário. Cinco minutos depois, alguém que nunca vi na vida comentou três vezes seguidas, três textos enormes, o famoso textão, nos xingando, insultando e tentando justificar o ponto de vista dele em relação ao nosso por meio de agressão verbal. Tentando, porque ofender alguém por simplesmente não concordar com o que esse alguém pensa não tem justificativa.

Pontos de vista diferentes sempre existiram. Mas está cada vez mais difícil respeitar o do outro e repensar o meu. Está cada vez mais difícil defender o meu sem ofender o outro. Estamos divididos nos blocos dos que concordam e dos que discordam. Não há meio termo, não há acordo, não há ponderação. Mas, principalmente, não há respeito. Você não é obrigado a mudar de ideia para concordar comigo, mas é sua obrigação me respeitar, independente da maneira como penso. Desaprendemos a discutir, não sabemos mais trocar ideias. Nos transformamos em crianças birrentas que, quando contrariadas, gritam, esperneiam e… Batem. As redes sociais que deveriam nos aproximar viraram campo de batalha e disseminação do ódio. E só pra lembrar: intolerância virtual também é violência.

Bom, eu tenho minhas verdades e costumo defendê-las. Mas não compro briga com ninguém. Prefiro me calar e deixar que o outro fale, porque quando se chega ao ponto de alterar os ânimos em uma discussão, fica praticamente impossível que o outro aceite sua maneira de pensar. Ninguém muda porque você quer que mude. A gente muda por causa das nossas experiências, das vivências, porque a vida nos deu aquela sacudida, abriu nossa mente e nos tirou de determinado lugar para que pudéssemos ver de outro ângulo. Nesse caso, aquela antiga verdade já era, né? Já não existe mais. Entendeu por que não vale brigar por isso?

Há uma frase (perdoem a memória ruim, não lembro e não encontrei a autoria) que diz: “ninguém é o mesmo de um ano atrás. Se for, tá com defeito.” É natural do ser humano mudar, evoluir, crescer. Quanto mais experiência ganhamos, mais nossa mente e compreensão se expandem. Se você se sente exatamente o mesmo do ano passado, há algo de errado. Talvez esteja fechado demais para o novo. Então, é mais fácil que você se torne uma dessas pessoas que fazem birra porque o vizinho corta a grama de um jeito diferente, ao invés de ir lá conhecer de perto a técnica dele e quem sabe até criar uma maneira diferenciada para si. Talvez seja hora de nos despirmos das nossas verdades para compreendermos que não somos donos do mundo, nem dos outros, nem da rua. Sequer somos donos da nossa calçada. E jamais seremos donos da verdade.

Foto: Victor Gomes